Ainda ontem à noite eu te disse que era preciso tecer.
Ontem à noite disseste que não era difícil,
disseste um pouco irónica que bastava começar,
que no começo era só fingir e logo depois, não muito depois,
o fingimento passava a ser verdade,
então a gente ia até o fundo do fundo.
Eu te disse que estava cansado de cerzir aquela matéria gasta no fundo de mim, exausto de recobri-la às vezes de veludo, outras de cetim, purpurina ou seda
— mas sabendo sempre que no fundo permanecia aquela pobre estopa desgastada.
Perguntaste se o que me doía era a consciência.
Eu te disse que o que me doía era não conseguir aceitar minha pobreza.
E que eu não sabia até quando conseguiria disfarçar com outros panos aquele outro, puído e desbotado,
e que eu precisava tecer todos os dias os meus dias inteiros
e inventar meus encontros e minhas alegrias e forjar esperas
e me cercar de bruxos anjos profetas
e que naquele momento eu achava que não conseguiria
mais continuar tecendo inventos.
Perguntei se achavas que minha fantasia me doía, e se me doendo também te doía.
Caio Fernando de Abreu